Algumas vezes me sinto uma foto 3x4, ninguém gosta, todos escondem, mas percebo que não é para tanto, então as vezes me sinto como um jogo de tabuleiro, difícil, chata para alguns, instigante para outros, provoco vícios mas vejo que não sou tão disputada para isso; é quando percebo que as vezes me sinto empoeirada, esquecida no canto, na estante da sala, ou até como um suporte para cadeiras com perna quebrada, o que eu sou? Eu sou um livro; acho que é mais que analogia, acho que é verdade.
Eu sou um livro, é, isso mesmo, sou um conjunto de folhas de papel, ora brancas, ora escritas, ora impressas, isso vai depender de quem me lê, posso ser longa, ser curta, ser chata, ser interessante, ser misteriosa, ser romântica, ser poética, posso ser clichê, posso ser piegas, quem sabe posso até ser uma saga, e quem me dera, uma saga interminável; de fato o meu autor é o melhor de todos, tão perfeito que deixou à minha escolha como vou ser escrita, claro que como vou ser lida não vai depender de mim.
Tem gente que lê, relê, trelê e não me entende, é difícil lidar com essas pessoas e confesso que não gosto de tentar me explicar para quem simplesmente não me entende, nunca adianta, vão continuar assim, por isso quando essas pessoas cansam de tentar me decifrar, me largam, as vezes olham para a minha capa e sorriem, mas não me abrem mais, tem os que leram o resumo e acham que me conhecem o bastante, e não faço questão, não, não desses leitores, ah, mas tem uns, uns que me abrem, me paginam, me devoram, e ainda falam para os outros que sou a melhor Obra que já leram, adoro esses leitores, os que me carregam para viagens, não na mala nem no porta-luvas, mas debaixo do braço, ou melhor, debaixo do chapéu, na cabeça, os que gostam de tecnologia e me transformam em livro eletrônico, os que sabem de cór o meu prefácio e os agradecimentos finais, conhecem meus gostos e desgostos, não me deixam pelo meu excesso de rasuras, e ficam ansiosos pelo próximo capitulo, as vezes não se agradam mas que posso fazer? Nem toda literatura é perfeita, aliás, nenhuma é; e eu, como qualquer outra, tenho meus momentos de amargura e/ou melodrama.
A má interpretação é a prova de que eu sou um livro, mas, Oh Deus, o que faço com os mau interpretadores?! Esses que espalham boatos e mancham a minha reputação de ‘Obra-genuína’, mas não tem muito o que fazer, aceitar é o que faço, afinal, como toda boa produção intelectual, devo receber criticas, merecidas ou desmerecidas, afinal não fui feita pro contentamento da maioria, quiçá de todos, talvez isso seja fruto das minhas letras pequenas ou meu raro vocabulário apurado, meu humor quase negro ou a minha ironia delicada, devo admitir que não tenho todos esses adjetivos juntos, mas eles aparecem em um ou outro capitulo e quando resolvo me expressar assim, ou de outra maneira, tem gente que não se agrada, isso na verdade não me incomoda, como já falei, gosto mesmo é dos leitores sedentos por minhas novidades, a verdade é que esses são raros, mas são suficientes, se houvessem muitos desses eu ficaria desgastada, folhas amareladas, brochura amassada, encadernamento velho, e viraria comum, algo lido por muitos não é interessante.
É claro que muitos vão me querer por causa da capa, outros por causa da grosurra, sim, tem esses que querem se passar por sabichões e querem andar com livros grossos, feito eu, mas poucos vão me querer pelo conteúdo, que não merece um prêmio por qualidade, mas dá para se satisfazer por uma vida inteira, pelo menos até eu chegar na minha ultima página, e apesar de uns que eu achei que seriam meus eternos leitores, terem me colocado na prateleira acima da TV, ao lado de outros livros não tão importantes, de lado, de maneira que só dá para ler meu nome, existem os que me colocam na cabeceira da cama, com um marca-página de bordas douradas, e nem assim ousam me fechar.
É, eu sou um livro, folhoso, com brochura ou encadernamento, elogios na contra-capa, prólogo quase pequeno, um espaço para sugestões (embora eu não goste de ter isso), algumas poucas rimas e uma literatura rara, feita para poucos.
Antúrio